Foram os meus avós maternos que deram o pontapé de saída ao hábito de se passar férias naquilo que em tempos foi uma das baías mais sossegadas da Costa Oeste de Portugal. A tradição manteve-se e o meu filho é já a terceira geração de crianças a disfrutarem do bom ar do mar que nos entra da baía pela manhã e ao anoitecer, combinado com o refrescante ar do campo dos pinhais e eucaliptais que rodeiam a vila. É lá que temos a sorte de aceder a uma casa de férias de familia, é lá que podemos desligar do mundo corrido da cidade, é lá que vemos com olhos de ver, ouvimos como deve de ser. É lá que vou buscar o ânimo, a inspiração para a vida de familia que transponho para o meu apartamento na cidade ao longo do ano, é lá que vou renovar a minha crença nos valores de familia que partilho com os meus, é lá que estreitamos os laços entre nós. É lá também que me deparo com um Portugal que normalmente ignoro, ou não acredito existir, ou penso pertencer apenas á condição de personagens de novelas portuguesas, que o comum de certos mortais tenta imitar em trejeitos, em nomes dos filhos, em maneiras de estar e de falar. Mas esse Portugal, esses privilegiados existem mesmo. Familias imensas, de avós e avós, tios-avôs e tias-avós, filhos e sobrinhos, primos direitos, primos em segundo grau, netos, bisnetos. Uma imensidão de vozes em que todos se tratam por você - o pai á filha de 2 anos, a mãe ao filho de 7, a avó ao sem fim de netos, os tios aos sobrinhos, o primo de 6 anos á prima de 4... - uma profusão de Salvadores, Santiagos, Madalenas, Tomáses, Caetanas, Mafaldinhas...é uma tribo inteira, que se rege pelos mesmos valores, em que os graúdos se sentam na praia em amena cavaqueira familiar - parte das férias são impreterívelmente passadas juntos, ali, naquela baía, tradição seguida desde os anos 40 - e os miúdos correm á solta, de pés descalços pelo asfalto - não faz mal, estão de férias e poupam os sapatos - ou pelas dunas em aventuras infantis, em que se clarificam os valores, em que á noite se janta tarde e todos juntos em confusão generalizada de vozes, em que há amas para os mais pequeninos. Consegue-se fácilmente identifcar cada membro destes clãs apenas pela genética, basta olhar para eles para saber se pertencem á tribo por casamento ou se o são de sangue, e mais fácilmente ainda se identificam os seus imitadores, os wannabes que povoam também a praia, estes em familias bem menos numerosas - pai, mãe, rebentos que podem ir desde um até aos 3 - em que os pequenos partilham nomes como Afonso, Martim, Carolina, Constança, e os fatos de banho são da Jacadi, e não andam descalços pelo chão mas sim com as sandálias de marca, como que a mostrar aos outros, aos "verdadeiros" que são dignos da sua companhia e de pertencerem ao seu mundo, tentando emulá-los em todos os actos e todos os gestos, sem no entanto o conseguirem, pois não lhes vem do berço, não lhes está na genética, serem assim. Talvez os seus bisnetos cheguem lá, qui ça? Não posso negar o meu fascinio com estes dois pólos, sou capaz de passar horas em observação profunda destas classes sociais, das quais não faço parte, por falta de dinheiro, por falta de vontade, mas não por falta de tradição, que o hábito de frequentar aquela praia começou na minha familia também pelos idos de 1940. Confesso que me inspiram, estas familias numerosas e unidas, talvez porque venha eu de uma familia profundamente disfuncional, invejo-lhes na realidade aquela noção de tribo, de clã, que lhes está no código genético, e sei que vão perpetuar por muitos anos o modo de vida dos seus pais, dos seus avós, dos seus bisavós. Inspiram-me a criar o meu próprio clã, por mais pequeno que seja - papa+maman+bebe - e a criar as nossas tradições. Inspiram-me a tornar-me mais terra a terra e bem menos consumista, a voltar a um ideal há muito perdido, e regresso a casa inspirada com ideias de domesticidade e formas de tornar o ambiente familiar mais aprazível, mais agradável, mais acolhedor, com pouco dinheiro. Pois é disto que se trata neste blog, um journal dos meus projectos domésticos, sejam estes de culinária, decoração ou costura...
Fiquei curiosa. Não identifico. Onde é?
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